Museu Carlos Gomes



 

CARLOS GOMES
(Campinas, 1836-Belém do Pará, 1896)

"No centro de Campinas, na Rua Regente Feijó quase esquina com Bernardino de Campos, existe uma placa num edifício acanhado. E só ela, ignorada pela maioria dos transeuntes, indica que na casa que ali havia nasceu e morou por muito tempo um garoto conhecido como Tonico, que aprendia música com o pai Maneco Músico e cantava no coro da igreja, obrigações que abandonava sem pestanejar para juntar-se à molecada, especialmente se era dia de malhar os Judas enforcados nos palmitais. Ou quando ia brincar nas enxurradas que desciam pela Rua das Casinhas (General Osório) “carregando com tudo quanto é sapo morto, galinha podre, sapatos e chinelos, cestos, jacás; todo pandemonium a despejar nos córregos que tortuosamente existiam”, nas palavras do próprio Tonico já no outono da vida, quando alquebrado e empobrecido ainda escreveu: “Daria toda a minha papelada de música em troca da volta àqueles tempos e poder rever, admirar, tocar, sentir o perfume e molhar as mãos na árvore orvalhada do cambuí florescido ou com a fruta madura”. 
Hoje não existem mais enxurradas no Largo do Rosário, cambuís são raros e a casa da Rua da Matriz Nova desapareceu para dar lugar ao “progresso”. Tudo o que resta do local onde o Tonico do Maneco Músico se transformou em Carlos Gomes é a reprodução em concreto de uma placa de bronze doada pelo Centro de Ciências, Letras e Artes, que foi roubada. Uma singela homenagem à casa que ali existiu. 
Aos 24 anos, contra a vontade do pai, Carlos Gomes foi para o Rio de Janeiro e ingressou no Imperial Conservatório de Música, iniciando sua trajetória artística com duas óperas em português: em 1860 apresentou A noite do Castelo e três anos depois, Joanna de Flandres. Graças a essa última e por ter sido o aluno mais destacado daquele ano de 1863 ganhou uma bolsa de estudos e partiu para Milão, onde, após compor a música para duas revistas (Se sa minga e Nella luna), conseguiu, em 1870, dar o passo mais importante de sua vida: montar a ópera Il Guarany no mais importante palco da Europa, o Teatro alla Scala. Apesar da distância, recebeu de sua cidade natal uma valiosa contribuição em dinheiro que lhe permitiu viabilizar o seu sonho. Parte dos recursos havia sido arrecadada a duras penas pelo seu irmão José Pedro de Sant’Anna Gomes (1834-1908), o Juca Músico, e outra parte foi enviada pelo imperador Pedro II.
Il Guarany foi um grande sucesso, mas Carlos Gomes queria avançar e compôs Fosca, que estreou no mesmo teatro em 1873. Sem repetir fórmulas consagradas, criou uma partitura vigorosa, utilizando temas recorrentes, orquestração sólida e um tratamento vocal inovador, com grandes saltos e harmonias ousadas. A despeito de sua indiscutível qualidade musical, Foscanão teve boa repercussão, já que foram apontados procedimentos de composição similares aos de Richard Wagner, cuja obra era então vista como oposição à de Giuseppe Verdi, portanto rejeitada na Itália. Esse erro seria reparado em uma nova montagem em 1878, mas antes disso Carlos Gomes se viu obrigado a deixar as ousadias de lado e criar uma partitura mais melódica e menos sinfônica. Assim surgiu Salvator Rosa, que estreou em Gênova em 1874. Embora esta ópera tenha sido extremamente bem sucedida e mais reverenciada até que Il Guarany, a predileção do compositor sempre foi a Fosca. 
Carlos Gomes retornou ao Teatro alla Scalla em 1879 para apresentar Maria Tudor, um de seus trabalhos mais elaborados, mas essa ópera não teve grande repercussão por motivos alheios à questão musical. Além da eterna disputa entre editores, alguns músicos italianos estavam descontentes pelo fato de um estrangeiro estar tomando tanto espaço no mais importante teatro de ópera da Europa. Essas dificuldades, agravadas por diversos problemas pessoais, inclusive a morte de um filho, provocaram um vácuo na criação operística de Carlos Gomes e foram necessários dez anos até que conseguisse concluir Lo Schiavo. Esta obra, após uma série de revezes na Itália, estreou no Rio de Janeiro em 1889 com o argumento abolicionista do Visconde de Taunay totalmente descaracterizado: escravos foram transformados em índios e a ação, que originalmente se passava em 1801, foi transferida para 1567, o que tornou o libreto bastante inverossímil. Mas isso não impediu o compositor de escrever um de seus mais belos trabalhos, pleno de momentos inspirados. 
O último trabalho operístico formal de Gomes e a única obra que escreveu sob encomenda foi Condor, obra cheia de inventividade melódica e de um sinfonismo bastante denso, que estreou no Teatro alla Scalla em 1891. Seu trabalho derradeiro Colombo, foi apresentado em 1892 no Rio de Janeiro, não sem problemas, já que não se trata de uma ópera, mas de um poema vocal-sinfônico concebido para ser apresentado em forma de concerto, com cantores estáticos no palco, o que causou estranheza no público carioca, pouco habituado a este gênero. Mas o tempo viria provar que era obra de um compositor maduro, com pleno domínio da escrita orquestral e vocal, na qual estão inseridos momentos marcantes da criação musical de Carlos Gomes. 
Enfermo e depauperado, em setembro de 1896 Carlos Gomes faleceu aos sessenta anos em Belém do Pará. Sua trajetória da modesta Campinas ao portentoso Teatro alla Scalla foi sintetizada pelo escritor Raphael Duarte em 1905, quando, ao relembrar o garoto que tocava triângulo na Banda do Maneco Músico, comentou: “Quem diria que aquele fedelho repenicador de ferrinhos seria a glória de seu país?”

Lenita W. M. Nogueira

O museu que faz parte do CCLA, possui um grande arquivo musical composto por diversas coleções de manuscritos e impressos de música erudita e de música popular, indo da primeira metade do século XIX até meados do século XX, totalizando aproximadamente 3.000 obras. Também possui uma extensa bibliografia sobre o compositor e suas obras, bem como libretos de óperas.

  • Visitas agendadas para escolas e individuais com acompanhamento de monitor. Partituras disponíveis para consultas e cópias.

Local:
Rua Bernardino de Campos, 989 - Centro, Campinas
Horário de funcionamento:

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